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Quem foi Monsenhor José Cacella?
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Para o que vem de longe e trás Perdão,
Abra-se o Dia e rasgue-se o horizonte,
Dos Céus, rescenda a flor em cada mãe.
Romeiro do resgate, meu irmão,
Eu só te trago a Dôr da minha Fonte...
Cresceram flores, na Ausência dos teus Dias;
As almas ímpias, foram mais além;
Contiga andaram, porque lhes trazias
Em teus ecos, a crença que faz bem...
Leve na alma, a glória merecida
A alma que deu tudo nesta Vida!
JULIETA FATAL |
Nasceu no Vale do Saco, em Alçaria, a 21 de Setembro de 1882, filho do professor Francisco
Ferreira Cacella e de Maria de Jesus e Silva. Filho mais velho de numerosa família, pois além de
si viviam na mesma casa, hoje ainda de pé, 10 irmãos, seus pais e a avó materna, totalizando 14 pessoas.
Após o exame da instrução primária, cujo professor foi seu pai, foi para o seminário de Santarém
em 1900.
Rezou a sua missa nova no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, a 15 de Agosto de 1909. Neste
mesmo ano foi nomeado organista e coadjutor do pároco da igreja do Sítio da Nazaré. Não sendo
do seu agrado estas funções, o Padre José da Silva Cacella surge na Vestiaria em Fevereiro de
1910, em substituição do Padre Joaquim Pedro dos Santos. Conhecedor das artes musicais, logo
se assume como responsável pela Banda da Vestiaria. Graças ao seu empenhamento a Banda da
Vestiaria atingiu um destacado nível entre as bandas do nosso concelho, sendo uma das primeiras
a executar o Hino Republicano, mais tarde o Hino Nacional. Foi em 09 de Julho de 1911 que
devido a conflitos políticos foi obrigado a deixar o país, refugiando-se em Manaus no Brasil.
Passamos a descrever um dos episódios que levou à sua saída do País: "Um dia, no regresso de uma deslocação da Banda Filarmónica da Vestiaria à Foz do Arelho,
Caldas da Rainha, foi informado que um grupo de monárquicos o esperava nesta cidade para
acerto de contas. De comum acordo com os elementos da banda, vestiu algumas peças de
vestuário dos músicos, passando despercebido."
Após 6 meses em Manaus, partiu para o Alto Amazonas nas margens do rio Aripuanã, pregando
a religião católica aos índios de várias tribos desta região.
Daí seguiu para Borba, a cidade mais antiga situada nas margens do rio Madeira. Missionário
e músico invulgar, ali fundou uma banda, até ser chamado de novo para Manaus, capital do
Amazonas, para exercer a função de organista.
O seu espírito aventureiro, levou-o de novo à Missão dos índios de Aripuanã, sendo bem recebido.
A dureza dessa vida, e carências de toda a ordem, fazem com que adoeça gravemente. Os médicos aconselham a sua partida, e decide ir para os USA a 31 de Dezembro de 1914, para junto dos seus
irmãos, em New Bedford, recusando-se a ser hospitalizado.
Escreve a um seu grande amigo e superior de um convento importante de Graymoor, situado nas margens do rio Hudson, reverendo Paul, que o recebe de braços abertos e onde recupera a saúde.
De imediato organiza uma orquestra no próprio convento que muito prestigia esta instituição e a ordem, e cuja fama leva o cardeal Hays a chamá-lo para a comunidade de portugueses em Fali Rivers e New York.
Foi designado para tomar conta de uma igreja da comunidade portuguesa em Fali Rivers,
Massachussets, onde se manteve por algum tempo, até que foi colocado em New York.
Novas dificuldades económicas e de toda a ordem surgem, só e abandonado nesta grande cidade, e porque se deu inteiramente ao apostolado sem nunca pensar em si próprio, é acolhido pelas freiras de Gaymoor, que vieram para Bronx e lhe conseguiram um quarto para viver.
Aqui dá de novo aulas de música, ensina violino, clarinete, flauta, piano, violoncelo e composição aos portugueses que conseguiu reunir na igreja Italiana, como meio de sobrevivência. Decidiu ainda leccionar a língua espanhola e fundar uma escola de música e uma orquestra, ajudado por piedosas senhoras e importantes empresários ligados ao ramo da música.
Durante dois anos tem um programa semanal na Rádio-Emissora York, com concertos musicais com os seus alunos.
Dois anos depois ficou responsável por paroquiar uma igreja portuguesa de New York.
Em 1924 criou a Missão de Santo António, com o objectivo de ajudar os mais pobres, distribuindo refeições e vestuário gratuitamente.
Em 1926 fundou o jornal semanário "Portugal", que mais tarde se chamou a "Luta". E é através
deste órgão de comunicação que divulga a sua obra, obtendo ajudas para os mais necessitados.
Em 1930 fundou a revista "St. Anthony Visitor", que é extinta alguns anos depois dando lugar a
uma nova com o nome de "Our Lady of Fátima".
Na Missão de Santo António fundou o "St. Anthony Welfere Center", uma escola de música e
uma tipografia.
Em 1942 um vestiariense de seu nome Júlio Bernardino Ramos, procurava radicar-se nos Estados
Unidos da América, e por casualidade ao entrar num café, deparou com um jornal de língua
portuguesa, chamado "A Luta", de que era director o padre José Cacella. Efectuou um primeiro
contacto telefónico, e logo deu notícias ao sacerdote, dos seus antigos paroquianos.
Após este contacto, Monsenhor José Cacella efectuou quatro visitas à Vestiaria.
Com o reconhecimento da sua obra, foi agraciado em 20 de Janeiro de 1966 com a Ordem do
Infante D. Henrique.
Jornal a Luta de 11 de Junho de 1975 - "O dia 27 de Maio de 1975 alvoreceu retalhando a nudez fria da noite, com as primeiras centelhas de um sol moroso, a delinear-se no horizonte do bairro Bronx de New York. Eram oito horas da manhã, Monsenhor José Cacella, já de pé, preparava-se com os seus 93 anos, para celebrar a missa, mas decidiu descansar mais uns minutos em meditação. Fechou os olhos e assim, placidamente, entregou a alma ao Senhor."
Texto retirado do livro
"100 Anos da Sociedade Filarmónica Vestiariense"
de Helder Sacadura
Clique aqui para ver carta do Padre João sobre o Padre Cacella
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